por Miguel Vale de Almeida, Professor Associado do ISCTE, investigador no CRIA-ISCTE
Por volta de 2010 ou 2011, creio, uma missão do parlamento de apenas 4 dias ao Quénia e ao Uganda por causa de questões relacionadas com o HIV-Sida. Entre hospitais e centros de investigação bastante decentes, em Nairobi e Kampala, e uma aldeia-mercado nas margens do Lago Victoria, local de intenso trabalho sexual e de onde se avistava uma ilha onde supostamente viviam homens infetados e sem família (não consegui aferir a distância entre realidade e mito).

Numa reunião com representantes e autoridades municipais, o líder local entra solenemente, devidamente paramentado, e rodeado de salamaleques. Depois de várias intervenções, e do seu discurso lacónico, pergunto propositadamente o que têm feito para abordar especificamente a população homossexual. A resposta foi algo como “aqui não há disso”. Resposta que eu simultaneamente esperava e temia. (A recusa da existência de homossexualidade em África, a sua atribuição ao colonialismo, e o uso político dessa retórica por lideranças financiadas pelo evangelismo americano tornar-se-ia numa história de terror no Uganda, com apelos à pena de morte de gays e lésbicas – que, afinal, existiam mesmo…).
A pandemia do HIV/Sida foi uma razia, de proporções inimagináveis por enquanto para a COVID-19. Mas naquela reunião à beira do Lago Victoria, a ideologia impôs-se à preocupação com a saúde. Impor-se-á agora também?
Lisboa, 13 de abril 2020.
OpenEdition sugere que esta publicação seja citada da seguinte forma:
CRIA (15 de Abril de 2020). UGANDA. CONFINARIA. Recuperado em 21 de Julho de 2026 de https://doi.org/10.58079/n27f

