por Vasco Gil Calado, doutorado em Antropologia (ISCTE) e investigador no SICAD
Da minha janela veem-se bem os efeitos da pandemia do novo coronavírus. Na verdade, medem-se melhor através do que já não consigo ver: as carrinhas que, ainda de madrugada, não vêm trazer os alunos ao Colégio Alemão, os aviões que a toda a hora não cruzam o Campo Grande, as filas de trânsito que à tarde não se formam na avenida e até as gaivotas que, indiferentes ao resultado, não vêm à minha rua nos dias a seguir aos jogos do Sporting. Os melros ainda por cá aparecem mas não se demoram, se calhar porque aparentemente nada se passa por estas bandas. O parque infantil está encerrado, assim como a escola de dança, a galeria ou a loja de candeeiros.

O que eu consigo ver bem são os olhares de desconfiança. Há duas epidemias que acontecem em paralelo: a da COVID-19 e a do medo. Tanto o novo vírus como o medo são contagiosos. Mais do que a distância, é o afastamento que é praticado com convicção. Na rua as pessoas andam cabisbaixas e evitam olhar-se quando se cruzam na fila da farmácia. Os que correm ao fim da tarde fazem por parecer que são apenas gente que tem pressa para chegar a algum lado e não quem já não aguenta ficar em casa e precisa cansar os músculos. Os corredores sabem que são alvo de crítica (o «vai trabalhar, malandro» de antigamente é agora o «fica em casa, idiota»). Os únicos que vejo andar na rua de cara levantada são os agentes da PSP, que dois a dois patrulham – sem grandes medidas de distanciamento físico, diga-se – um bairro onde agora nada acontece no espaço público. Não há carros estacionados em segunda fila nem putos a tagar paredes ou a fumar ganzas nas traseiras das esplanadas.
Da janela para dentro que vejo é o triunfo dos eletrodomésticos, que é o nome de uma música dos Sitiados (nem de propósito!). Na vida dos confinados modernos, os ecrãs adquirem uma importância quase vital. Durante a II Guerra Mundial, os sitiados sabiam as novidades do mundo e da frente de guerra através da rádio. Hoje, para os sitiados do século XXI, o telemóvel, o tablet e o computador não são formas de comunicação com o mundo, são o próprio mundo. Onde se trabalha e se finge que se trabalha, onde se alimenta o alarme social e se combate o pânico moral, onde se questiona a verdade única e crescem as teorias da conspiração, onde ao mesmo tempo, e num tom de voz parecido, se diz que vai ficar tudo bem e que vamos todos morrer. Onde se combate a solidão – no ciberespaço ninguém está confinado, pois não há paredes (só firewalls). Toda a gente sabe que ninguém suspira sozinho.
É também no ciberespaço que se forjam ativismos e campanhas de solidariedade. A cantiga já não é uma arma. Não como os memes ou as mensagens de whatsApp, pelo menos.
Estamos em abril mas este ano a poesia não está na rua. Temporariamente, esperemos.
Lisboa, 6 de abril de 2020.
OpenEdition sugere que esta publicação seja citada da seguinte forma:
CRIA (9 de Abril de 2020). PANDEMÓNIO. CONFINARIA. Recuperado em 11 de Setembro de 2026 de https://doi.org/10.58079/n26w


Muito bom. Excelente!
Bem visto, bem sentido, bem escrito.