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VIRÓCULOS

por Luís Cunha (CRIA-UMinho)

Virócular é o que se chama ao exercício de ver o vírus com binóculos. As almas cândidas acharão que com binóculos não se vê o vírus, mas isso é apenas porque as almas cândidas veem o mundo com candura. Que não o veja assim o etnógrafo. Reduzido à sua varanda debruçada sobre o mundo não deve dispensar os binóculos, pois se é certo que com eles não vê o vírus, ajudam a perceber o mais aterrador da crise pandémica.

Foto do autor

Da minha varanda vê-se o mundo às avessas do que tem sido, mas também às avessas do que deveria ser. Quase ninguém circula, tudo fechou, vagas sombras de gente apenas se mostram a medo. Vejo passar um carro da polícia proclamando o estado de emergência, impondo a todos o maior recato. Sem binóculos, já vi casos semelhantes em filmes de Hollywood que anunciavam o fim do mundo. Fitas medonhas, em que uns mortos-vivos caminhavam destrambelhados à cata de vítimas que mordiam e transformavam em novos mortos-vivos. Deve ser isso mesmo que está a acontecer lá fora, pelo menos eu sinto-me um perigoso morto-vivo sempre que percebo o ar aterrorizado de algumas pessoas que comigo se cruzam na rua, como se fosse morder-lhes as mãozinhas acabadas de lavar.

Afastados os binóculos, dou por mim pensando que o mundo não está para a acabar e que o verdadeiro vírus é o do medo. Um bichinho insidioso que se vê a olho nu e não engana, apesar das diferentes formas que assume. Uma delas é a de redenção pelo castigo: devemos ficar em casa e sofrer, sentarmos-nos frente à TV anotando mortos e feridos, rezando, quem for de rezar, para que a curva achate de vez, numa estranha aliança da fé com a estatística. É uma guerra, dizem-nos todos os dias, reclamando uma camaradagem forçada. Sempre acreditei que é da retaguarda que a guerra se vê melhor, mas olhando com os meus binóculos assusta-me menos o avanço do inimigo que a mansa submissão à ordem, esse alívio pueril com que aceitamos todas as exceções que nos são impostas, mesmo o regresso a uma etnografia de varanda.

É muito difícil focar os binóculos para ver o que está para vir. Só se conseguem imagens desfocadas, talvez falsas – ou então tão verdadeiras que assustam. Parece ver-se uma União Europeia a esboroar-se de vez, cada país recolhendo os cacos que lhe cabem, entregues, todos eles, à aritmética dos ganhos e perdas próprios. Vê-se também como os riscos do estado de exceção, apontados por Agamben no princípio do século, se tornaram uma piada perante a sua banalização, que encontra expressão extrema e potencialmente contagiosa na Hungria. Focando para mais perto, para o nosso quintal, vêem-se ilustres criaturas, capitães da gestão e da finança, discretamente escondidos atrás do medo que nos é mostrado a cada instante. Ocupam-se, diligentemente, de contabilizar quanto podem ganhar com tudo isto e qual a melhor forma de apresentar a conta final aos de sempre. Nem precisamos de usar binóculos para perceber que estão já a experimentar o fato de general-vencedor-da-árdua-batalha que usarão para nos comunicar que podemos relaxar: saídos do barco comum, o nosso futuro garantem eles.

Braga, 4 de abril de 2020.


OpenEdition sugere que esta publicação seja citada da seguinte forma:
CRIA (6 de Abril de 2020). VIRÓCULOS. CONFINARIA. Recuperado em 21 de Julho de 2026 de https://doi.org/10.58079/n26t


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