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Fenómeno total

por Bruno Urbano, licenciado em Antropologia (NOVA FCSH), Pós-Graduação em Antropologia Aplicada (NOVA FCSH), Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (Universidade Católica de Lisboa)


Em “Ensaio sobre a dádiva”, Marcel Mauss define que “fenómenos sociais «totais», como propomos chamar-lhes, exprimem-se ao mesmo tempo e de uma só vez todas as espécies, de instituições: religiosas, jurídicas e morais — e estas políticas e familiares ao mesmo tempo; económicas — e estas supõem formas particulares da produção e do consumo, ou antes, da prestação e da distribuição; sem contar os fenómenos estéticos a que estes factos vão dar e os fenómenos morfológicos que manifestam estas instituições.” (Mauss, 1950: 55)

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Referindo-se a unidades culturais como totalidades, Mauss circunscreve-se a um tema específico: “De todos estes temas muito complexos e desta multiplicidade de coisas sociais em movimento, não queremos aqui considerar senão um dos aspectos profundo mas isolado: o carácter voluntário, por assim dizer aparentemente livre e gratuito, e todavia forçado e interessado destas prestações.” A dádiva, a entrega humana sem troca, ou desinteressada, é o elemento cultural de uma investigação sobre “os fenómenos morfológicos que manifestam estas instituições.” (Mauss, 1950: 55).

A dádiva institui uma atribuição relacional, de interação entre transmissor e adquirente, os indivíduos que nela participam. Na circunstância pandémica, como metonímia de diálogo social, é a dádiva de uma posse, não pretendida e como tal evitada.

A pandemia e confinamentos, os seus quadros legislativos e execuções sociais, em instituições (ou distanciamentos) sociais, que determinam condutas e interações, emergem como expressões parciais, mas adquirem um caráter cultural total, de ponto de referência de intersubjetividades.

Manifestam uma realidade de ligações e conexões interdependentes, onde a ausência contemporânea de simultaneidade das experiências humanas inviabiliza, nas palavras de Mauss, o “acesso à consciência das próprias sociedades, pois trata-se aqui de termos e de noções; (…) restringia ainda o campo das nossas comparações”. Sem estabelecer esse acesso especializado, conhecemos comunidades distintas e sabemos, conscientes que “renunciamos, pois a essa comparação constante em que tudo se mistura e em que as instituições perdem toda a cor local, e os documentos o seu sabor.” (Mauss, 1950: 57)

Monte Real, 12 fevereiro 2021.

Mauss, Marcel (1950). Ensaio Sobre a Dádiva. Edições 70. Fevereiro de 2019 (reimpressão)


OpenEdition sugere que esta publicação seja citada da seguinte forma:
CRIA (13 de Abril de 2021). Fenómeno total. CONFINARIA. Recuperado em 20 de Julho de 2026 de https://doi.org/10.58079/n2a9


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