CONFINARIA – Etnografias em Tempos de Pandemia é uma proposta de Comunicação de Ciência do CRIA que consiste num blogue coletivo onde se partilham reflexões e experiências sobre os tempos vividos em contexto de pandemia causada pelo COVID-19 e que servirão para memória futura e apreciação retrospetiva destes tempos excecionais.
Estes são tempos diferentes; quotidianos alterados e renovados; vidas, de certo modo, suspensas no medo, no receio de um vírus que se tornou pandémico e que fez alterar a ordem social, as relações pessoais, as formas mais regulares de comunicação e interação – do trabalho, à família, passando pelos grupos de amigos ou outros coletivos dos quais vamos fazendo parte.
Há muito que Donna Haraway (e outros como Eben Kirksey, Stefan Helmreich ou Anna Tsing) sugeriram alargarmos o escopo dos outros bióticos com os quais nos temos que relacionar quando fazemos etnografia – no âmbito das ‘suas’ etnografias multiespécie. Falaram da vida social das bactérias e fungos (como seres vivos que são) e hoje temos um vírus que literalmente precisa de nós e de outros seres vivos para poder ser. E todas as vidas parecem depender dele!
Somos ou estamos diferentes desde dia 16 de Março de 2020. Estamos? Somos? E como reagimos ao medo e às restrições impostas? Como nos comportamos tendo em conta os avisos médico-científicos, político-sociais? Como lidamos agora com os nossos filhos, companheiras, irmãos, vizinhos, amigos, os comerciantes das ruas onde vivemos? Como estamos com os mais velhos? Que cuidados temos com a roupa, a lavagem das mãos e outras soluções de etiquetagem da saúde que agora somos levados a considerar? Estamos mais atentos – no duplo sentido da palavra? Cuidamos mais e melhor? Como lidamos, então, com este confinamento, ‘estes dias aparentemente sempre iguais’? A partir de uma etnografia das ruas, das zonas residenciais, das casas, das vidas, pretende-se criar um diário de um tempo excecional. De um tempo outro que nos faz inevitavelmente outros.
Os registos podem ser vários: impressivos, refletidos, teorizados, ou mais artísticos, tentando dar conta de uma antropologia do imediato, de uma etnografia da urgência. Importa o que nos afeta e o que afeta aqueles que temos a possibilidade de ir acompanhado, vendo, escutando, sentindo. São terrenos novos, diferentes em virtude de limitações (auto) impostas. Abrimos a porta de nossas casas (e incluímo-nos nas nossas novas respostas), e vamos às ruas e aos espaços que nos é permitido frequentar. Olhamos por nós e vemos os que nos rodeiam – seguramente produzindo registos que darão azo no futuro e retrospetivamente a uma apreciação mais completa, complexa (porque feita de múltiplas perspetivas) e necessariamente plural destes dias.
30 de março de 2020.
OpenEdition sugere que esta publicação seja citada da seguinte forma:
CRIA (30 de Março de 2020). CONFINARIA | APRESENTAÇÃO. CONFINARIA. Recuperado em 21 de Julho de 2026 de https://doi.org/10.58079/n26l
